quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

A HISTÓRIA DOS RIOS TIJUCANOS - PARTE I

Por Alexandre Gontijo[1] 

Parque Nacional da Floresta da Tijuca

Durante esta série de artigos, abordaremos a história dos Rios mais famosos da Tijuca, realizaremos um tour através do tempo para recordarmos a importância destes cursos hídricos para a Cidade e Grande Tijuca.Se você fizer uma remessa no tempo a procura de  dados e maiores informações sobre a Grande Tijuca e adjacências, certamente encontrará  muita informação sobre alterações, traçado viário, histórias domésticas e muitas  outras  que instigam o leitor pela própria curiosidade.  Mas isto tudo não é o bastante para aguçar o nosso interesse pela descoberta de outras informações diferentes. 

Inicialmente, o próprio termo “tijuca”, deriva do tupi guarani clássico, (tiyug - líquido podre, lama, charco, pântano, atoleiro). Tal significado advém  dos diversos rios  e cursos d´água que surgem do topo do maciço que leva o nome do bairro e percorrem a região das baixas e deságuam no canal do mangue.  Neste local, a história de formação da Tijuca está eternamente gravada nas construções do Homem, nas grandes marcas da urbanização e nos diversos espaços naturais daquela floresta.   Tudo começou com o plantio de  cana de açúcar, café e chá naquela região. A Floresta da Tijuca, antes mesmo de se transformar neste paraíso que hoje está gravado como Unidade de Conservação,      uma vez que hoje é um Parque Nacional, protegido pela Lei Federal nº 9.985/00.  Parque Nacional da Tijuca
A Tijuca nasce às margens do Rio Trapicheiro, em uma área onde os  jesuitas edificaram uma igreja, a de São Francisco Xavier. 


 Igreja de São Francisco Xavier, edificada de 1582 a 1585, entre o rio Trapicheiro e o Morro da Babilônia, no Engenho Velho ou Engenho Pequeno, propriedade dos padres jesuítas.
 
Com o decreto de expulsão da Companhia de Jesus do Brasil em 1759, o território se transformou. Os bens da ordem religiosa foram sequestrados e incorporados aos bens públicos. Surgiram logo chácaras e fazendas de abastadas famílias brasileiras que procuravam a região para fugir do calor e das epidemias do centro da cidade.
Os engenhos e grandes sesmarias margeavam a cidade do Rio de Janeiro e o cultivo do café e do chá nos morros tijucanos recebeu grande destaque naquela época. O plantio da cana-de-açúcar demandava infra-estrutura e uma modificação exercida pelo homem já ganhava contornos, pois o rio Trapicheiro teria seu curso desviado a fim de melhor abastecer o Engenho Velho. A ocupação portuguesa no recôncavo da Guanabara era mesmo promovida pelos jesuítas que ainda detinham a função de abastecer a zona central da cidade com alguns produtos alimentícios.(AZEVEDO & RIBEIRO, 2009).
Mais tarde, já no final do Século XIX a área dos grandes cafezais foi objeto de um grande incêndio, também provocado por um período de seca, que tornou todas as fazendas e engenhos improdutivos.   Após este triste evento, em 1861 iniciou-se uma itensa intervenção do Homem no Maciço da Tijuca. Conduzida  sob a direção do Major Manuel Gomes Archer, que durante 13 anos plantou mais de 80 mil árvores nativs e exóticas. Tal ação foi sucedida pelo administrador Thomás Nogueira da Gama,  que durante 25 anos recuperou as matas do Sumaré e das Paineiras, tudo isto por encomenda do Imperador Pedro II, dando início a um processo de reflorestamento completo de toda a área da floresta da Tijuca.

Major  Manuel Gomes Archer

 Portanto, verifica-se que há mais de dois séculos atrás, tivemos em nossas mãos uma prova robusta de que é possível a recuperação natural de uma área desmatada mediante ações humanas de reflorestamento. 
Se não  bastassem estas peculiaridades, a Tijuca ainda guarda remanescentes da época da escravidão, como áreas onde são encontrados  antigos sítios arqueológicos, senzalas desativadas e até mesmo construções da época em que o óleo de baleia e a argila eram o elemento de liga para as pedras portuguesas que contribuíram para a edificação dos engenhos e casario daquela época.  Foi às margens do Rio Maracanã (nome atribuído em razão da ocorrência de uma maritaca denominada Ara maracana, hoje quase não mais vista na região.)

Ara maracana


que muitas áreas da grande Tijuca foram nascendo. Ele era até mesmo navegável, fato que pode ser comprovado por um cais que até hoje é encontrado nos fundos do casarão da Rua Garibaldi esquina com Conde de Bonfim, local onde é encontrada o Centro de referência da Música Popular Carioca. (OLIVEIRA,2009).  Se não bastasse isto, até hoje podemos encontrar, em lugares como na Usina e Muda, casas que ainda mantêm  nos fundos, pequenos degraus onde as lavadeiras desciam até o Rio Maracanã para lavar roupas e fazer uso das águas limpas deste bucólico curso hídrico.

 Rio Maracanã – 1916 ( OLIVEIRA, 2009)

 O Rio Maracanã é um importante contribuinte da bacia do canal do mangue, e durante muitos anos forneceu água para a Cidade do Rio de Janeiro, chegou, inclusive a abastecer as represas que hoje se encontram no interior do Parque Nacional da Tijuca.  Outro importante rio da região foi o Andaraí  Pequeno, ou atualmente denominado Rio Joana. Este rio também foi um importante contribuinte para a formação histórica da Tijuca. Seu nome tem origem tupi, que significa “Rio dos morcegos”.  A região do Andaraí Grande, era formada pelos bairros da Tijuca, Andaraí, Vila Isabel,Aldeia Campista e antiga Freguesia do Engenho Velho.
 Às margens do  Rio Joana muitos empreendimentos  surgiram, principalmente pequenos trapiches, e grandes fábricas têxteis e de papel.  A formação e ocupação  urbana do local se desenvolveu em razão das vilas operárias que  foram construídas  por estas empresas, que mais tarde deram inicio a ocupação das encostas e morros do local. 
Dedicaremos vários outros artigos ao histórico dos Rios Tijucanos e neste artigo falaremos do rio que margeia a Praça Saenz Pena: o Rio Trapicheiros, que  nasce também no maciço da Tijuca e deságua na bacia do canal do Mangue.
Sua maior representatividade com o local foi na área da praça Saenz Pena, onde também são encontrados traços antigos de escadas de acesso e áreas de lavagem de roupa.  Estes três rios tijucanos, são hoje principais contribuintes da bacia hidrográfica do canal do mangue, que está localizada na Praça da Bandeira. Naquele local, além dos Rios Maracanã, Joana e Trapicheiros, também deságuam os Rios Comprido, (que nasce no alto do Sumaré e percorre toda a av. Paulo de Frontin), o Rio Papa couve, ou coqueiros, que nasce no morro da coroa no catumbi e passa por debaixo do sambódromo e deságua no canal do mangue, e o próprio canal do mangue, que era formado basicamente de brejos, várzeas, pântanos, lagunas, manguezais, que faziam ligação com a Baía de Guanabara pelo antigo estuário de São Diogo, que recebia todos os dejetos da área central da Cidade.  Observando estes cursos hídricos, comprovamos que o problema de alagamento da Praça da Bandeira, além de histórico, é, também, geográfico.  Afinal, naquele local deságuam vários cursos hídricos que nascem nas encostas do Maciço da Tijuca. A praça Saenz Pena é a princesinha da Tijuca, com seus encantos, características e tom bucólico, principalmente em razão de sua origem, às margens do Rio Trapicheiro.

Rio Trapicheiro

 A ocupação da área da Praça Saenz Pena foi estimulada pela construção da antiga Fábrica de Chitas. é um  tecido de algodão com estampas de cores fortes, geralmente florais, e tramas simples. O nome chita vem do sânscrito chintz  e surgiu na Índia medieval e conquistou europeus, antes de se popularizar no Brasil.
 O Largo da Fábrica das Chitas era localizado no entroncamento do Caminho do Andaraí Pequeno, hoje Rua Conde de Bonfim e a Travessa do Andaraí, que foi aberta em 1820 nos terrenos das Chácaras do Barão de Bonfim, de Izabel Martins e de Dona Maria Bibiana de Araújo, que levava à Fábrica. Esta rua antes se chamou


 Fábrica de Chitas
 Rua da Fábrica de Chitas e atualmente é a Rua Desembargador Isidro.  O local ainda foi cenário de diversos períodos políticos e é um marco no estilo art déco. Os cinemas da região também marcaram o histórico da Praça. Ali foi edificado o famoso Cinema Olinda, o maior do Brasil, com espaço para 3.500 pessoas e estava localizado onde hoje encontramos o atual Shopping 45.

Cinema Olinda

Para quem nasceu até a década de 60, fácil é  se recordar  dos bordejos do Café Palheta e do famoso coreto que encantava aquela Praça, que ganhou o nome de um presidente argentino.
Inauguração da Praça Sãenz Peña
 O Comércio em seguida, tomou conta do espaço, e, lastimavelmente os cinemas foram tomados por igrejas evangélicas e grandes lojas, farmácias, etc...
Estudar os rios tijucanos é rememorar o prazer lúdico, e observar atualmente como a expansão imobiliária e a irregular ocupação do solo urbano descaracterizou o local.   Um importante dado que contribuiu em muito para a conservação da floresta da tijuca, foi a importância atribuída por Pedro II à conservação dos cursos hídricos da Cidade.
Se você leitor desejar acessar o vídeo sobre as atuais condições destes rios, CLIQUE AQUI  e ajude-nos a conservar os Rios da Tijuca.

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No próximo número, falaremos sobre o Rio Joana, e suas peculiaridades.
 
BIBLIOGRAFIA
AZEVEDO. Luiz Eduardo Maciel de. & RIBEIRO, Miguel Ângelo. “ A presença da Imigração Portuguesa no bairro da Tijuca – RJ.”
CUNHA, N. V. História de Favelas da Grande Tijuca contadas por quem faz
parte delas. Ed. IBASE e Agenda Social Rio. Rio de Janeiro, 2006.
CARDOSO, E.D. et al (1984): História dos bairros – Tijuca Grupo de Pesquisa
em Habitação do Solo Urbano – PUR – UFRJ. Rio de Janeiro: João Fortes
Engenharia / Index Editora.
CARRERA, Francisco. Cidade Sustentável – Utopia ou Realidade. Ed. Lumen Juris. 2005.
OLIVEIRA. Lili Rose Cruz. Tijuca de Rua em Rua. Ed. Estácio de Sá. 2009.



 




[1]    Alexandre Gontijo é  Gestor de Negócios Empresariais, Presidente do INSTITUTO EVENTOS AMBIENTAIS – IEVA
e-mail: Alexandre.gontijo@globo.com   ( cel: 21-91268248)

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